terça-feira, 27 de abril de 2010

Francisco Vieira o PORTUENSE









FRANCISCO VIEIRA,
O PORTUENSE 1765 -1805








1765 – a 13 de Maio nasceu Francisco Vieira na cidade do Porto, filho de Domingos Francisco Vieira e sua mulher Maria Joaquina.
Os primeiros anos de existência de Francisco Vieira permanecem obscuros e provavelmente assim irão continuar.
Seu primeiro mestre foi o pai Domingos Francisco Vieira, que era droguista, e também pintor de paisagens.
1780 – a 17 de Fevereiro abre no Porto a Aula pública de Debuxo e Desenho. É provável que Vieira perto de completar os 15 anos de idade, tenha frequentado a Aula de Desenho, que começou a funcionar ali mesmo ao lado do local onde residia, junto à Porta do Olival. Nada foi encontrado que o pudéssemos confirmar. Veio a optar mais tarde pela frequência da Aula de Lisboa (1787) com o objectivo de, consideraram alguns, obter pensão régia.
A passagem de Vieira pela Aula de Lisboa foi curta pois antes de Agosto de 1789 já estava em Roma.
Taborda (1815) e Cyrillo (1823) afirmam claramente que Francisco Vieira foi para Roma graças ao apoio da Junta da Companhia das Vinhas do Alto Douro, com uma pensão de 300$000 reis.
Vieira recebe o 1º. Prémio de Desenho no concurso da Academia do Nu do Capitólio, em Roma. No certificado do júri do Concurso, que atribui o primeiro prémio a Vieira, são salientadas a qualidades de seu desenho.
Em 1790 a 22 de Setembro foi-lhe anunciado a atribuição da tão esperada pensão régia (que iria receber a partir do mês de Outubro).
Em 1792, Vieira regressa a Roma depois de uma viagem de 4 a 5 meses que o levou a Pegugia, Ancona, Pesaro, Fano, Lesi, Ferrara, Forli, Imola e talvez Ravena. A partida para esta viagem marca o fim de um período de aprendizagem artística limitado ao universo de Roma.
Em 1793, anuncia que vai para Parma, onde permanecerá alguns meses, não só para fazer grandes estudos de Corregio, como também para dar início ao quadro Medeia.
Em 1794, Francisco Vieira é eleito “Academico Professore di Pittura” da Academia de Belas Artes de Parma. A 23 de Setembro, Vieira anuncia que irá viajar para Piacensa e Cremona.
Em 1796 , Vieira viaja para Londres e dá a notícia do aumento da sua pensão, quase para o triplo do que já recebia.
Em 1798, na abertura da Exposição da “Royal Academy of Arts”, Vieira expõe três pinturas. Por indicação registada no Catálogo desta exposição, Vieira residia no nº. 40 da “Cumberland Place, Vew Road”. Ainda neste ano, Vieira apresenta ao amigo editor o projecto de publicar uma obra sobre Camões, informando-o de que estava já a delinear os quadros para ilustração de dez cantos dos Lusíadas. Vieira tenta associar esta sua proposta ao antigo projecto para uma edição dos Lusíadas.
Em 1799, a 9 de Junho, Vieira casa com Maria Fabbri, que segundo correspondência de Vieira, era bela, graciosa e falando na perfeição as principais línguas, pelo muito que tinha viajado pela Europa.
Em 1802 a 3 de Janeiro Vieira escreve do Porto a Rosaspina, (Francesco Rosaspina) onde declara ter chegado ao Porto há poucos dias, com a sua consorte, para dar abertura à Academia desta cidade, tendo deixado Londres justamente no passado mês do Outubro.
Em 1805 Viera adoece gravemente viaja para a Madeira a fim de se restabelecer, mas morre no Funchal a 2 de Maio, poucos dias de completar quarenta anos de idade.
Francisco Vieira foi o mais viajado artista português do seu tempo, tendo passado grande parte da sua carreira profissional fora do país. A necessidade da estadia no estrangeiro, sentida e algumas vezes cumprida por outro artistas seus contemporâneos, foi entendida por Vieira de um modo muito particular e com uma urgência que, na nossa era global de fácil e rápida comunicação, só poderemos entender no contexto da realidade sócio-política e cultural portuguesa dos finais do século XVIII.
E contudo, a duzentos anos de distância, o perfil de Francisco Vieira adquire contornos de actualidade que se vão definindo com a leitura de correspondência, a análise dos álbuns de desenhos, o estudo dos mestres que elegeu e dos artistas com que se cruzou e com quem trabalhou.
Hoje podemos apreciar o destino europeu que Vieira desejou para si, partilhando a consciência de uma cultura europeia comum, com artistas, filósofos e intelectuais da sua época.
Compreendemos porque se demorou numa Europa perigosamente agitada pela Revolução Francesa, mas que lhe proporcionava simultaneamente o convívio com grandes obras do passado, os mais importantes artistas contemporâneos, os mais esclarecidos mecenas.
Reconhecemo-nos na iniciativa pioneira da comunidade empresarial do Porto ao investir no talento do jovem, de cujas qualidades artísticas e humanas a cidade poderia vir a usufruir.
Como também sabemos avaliar o empenho de Vieira em conquistar um lugar na comunidade artística europeia diversificando as suas actividades nos meios social e culturalmente exigentes em que se movia, procurando encomendas, aceitando alunos, negociando em arte, promovendo projectos editoriais, estabelecendo parcerias capazes de se traduzirem não só em reconhecimento profissional como em indispensáveis benefícios materiais.

Estudos de figura
Album de desenhos 1782-1785
lápis 260 x 405 mm
Colecção Herdeiros de Alfredo Ayres de Gouveia Allen

Madona del Foligno, (cópia de Rafael)
Álbum de desenhos 1789-1793 (?)
Lápis 290 x 147 mm
Colecção do Museu Nacional de Arte Antiga - Lisboa

Igreja de Stª. Teresa em Caparolla (Viterbo)
Abum de desenhos 1789-1793 (?)
Lápis - 116 x 169 mm
Colecção do Museu Nacional de Arte Antiga - Lisboa

Lamentação (cópia de Rafael)
Álbum de desenhos 1792(?)
Lápis 195 x 267 mm
Colecção do Museu Nacional de Arte Antiga - Lisboa


Anunciação (cópia de Guercino)
Álbum de desenhor 1796 (?)
Lápis 183 x 223 mm
Colecção do Museu Nacional de Arte Antiga - Lisboa

Vista da Fortaleza de Ancona
Álbum de desenhos - Ancona 1796
Lápis - 116 x 185 mm
Colecção do Museu Nacional de Arte Antiga - Lisboa

1º. Prémio do concurso da Academia Capitolina do Nu, Roma
Desenho a lápis e cré sobre papel cinzento - 534 x 405 mm
Colecção da "Accademia Nazionale di San Luca" - Roma


Desenhos académicos


Desenhos Académicos


Desenho Académico - sanguínea e realços a branco
410 x 270 mm
Colecção da Casa Museu Teixeira Lopes - V.N.Gaia




Madonna de S. Jerónimo (cópia de Correggio)
1793-94 - Óleo sobre tela - 197 x 140 cm
Colecção particular


Cabeça de velho (assinada e datada (1793)
Óleo sobre tela - 44 x 31 cm
Colecção da "Galleria Nazionale" de Parma (oferta do autor)


Retrato do Bispo Adeodato Turchi - 1794-95 (?)
Óleo sobre tela - 43 x 35,4 cm
Colecção da "Galleria Nazionale" de Parma

Retrato de Francesco Martin Y Lopez
Óleo sobre tela 38 x 32 cm
Colecção da "Galleria Nazionale" de Parma

Retrato de Carolina Maria Teresa de Bourbon - 1794
Óleo sobre tela 70,5 x 56 cm
Colecção da "Galleria Nazionale" de Parma

Retrato de Maximiliano da Saxónia (D. Ludovico de Bourbon
Óleo sobre tela - 70 x 56 cm
Colecção da "galleria Nazionale" de Parma


Retrato da Duquesa Maria Amália de Parma - 1795
Óleo sobre tela - 100 x 78 cm
Colecção Manuel Antunes - Lisboa

Lição de pintura
Óleo sobre tela - 15,2 x 26,2 cm
Colecção particular

Cristo Crucificado (antes de 1793)
Óleo sobre tela 135 x 98,4 cm
Enviado de Itália para Portugal em 1796 como propriedade do autor, (colecção Allen)
Porto, Cânara Municipal - Museu Nacional Soares dos Reis

D. Filipa de Vilhena armando seus filhos cavaleiros
Assinada e dadata, Londres 1801
Óleo sobre tela - 150 x 212 cm
Colecção particular - Lisboa

Bonaparte - A Dissolução do Conselho dos Quinhentos
Gravura a água forte e buril - 500 x 665 mm
Biblioteca Geral da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto

Retrato de Francisco Vieira pintado por Angelika Kauffmann
Óleo sobre tela 94,5 x 80 cm
Bregenz, Vorarlberger Landesmuseum

Fonte: Catálogo da exposição temporária no Museu Soares dos Reis em 2001, o ano em que a cidade do Porto foi Capital Europeia da Cultura
Francisco Vieira ficou conhecido com “Vieira Portuense”, para ser distinguido de Francisco Vieira de Matos (1699-1783), conhecido por “Vieira Lusitano”.

Notícia do Público:Num acordo com o Ministério da Cultura (MC), um empresário português - que prefere manter o anonimato - comprou ontem num leilão em Paris o quadro Súplica de D. Inês de Castro, de Francisco Vieira, o Portuense (1765-1805), por 210 mil euros.
 

Cacho de uvas

Cacho de Uvas
Óleo sobre tela 50 x 40 cm - Ano 2009

domingo, 25 de abril de 2010

As cores da nossa Bandeira

"Abril para vivir abril para cantar
Abril flor de la vida al corazón
Abril para sentir abril para soñar
Abril la primavera amaneció"

(1ª. quadra da canção de Carlos Cano "Luna de Abril")

Clara Monte

domingo, 18 de abril de 2010

A Guerra Civil Espanhola na Memória de Barrancos


 ALICE MARQUES
Em 1936 quando começou a guerra, porque meu Pai era espanhol e tínhamos sobrinhos em Toledo e Talavera de la Reina, estávamos sempre com medo que lhes acontecesse alguma coisa.
Mandávamos-lhes frequentemente cartas e encomendas de conservas pelo correio, e acompanhávamos o desenrolar da guerra pelo jornal "El Pueblo Galego".
Uma família nossa amiga, oriunda de Oliva, refugiou-se em nossa casa durante algum tempo, até que os denunciaram. Vieram buscá-los e confiscaram-lhes todos os bens, um carro e todo o dinheiro que tinham. Foi uma desgraça.
Em Encinasola, o sinal combinado para avisar que os da direita se aproximavam era o toque do sino da igreja, onde estava sempre uma pessoa de vigia. Então, quando se ouvia o sino, as pessoas ficavam apavoradas.

ANA ABADE COMPRIDO
DOMÉSTICA
IDADE : 67 ANOS
Durante a guerra civil, grande parte da população de Encinasola fugiu para Barrancos. Estavam escondidos em casas particulares e nos montes. Um dia em que tudo estava sossegado, foram dois rapazes espanhóis a Encinasola ver como estava a povoação. Voltaram dizendo que só havia cães uivando, gatos miando e galinhas cacarejando.

Os do partido contrário (falangistas) entravam em casa das pessoas, partiam tudo, levavam as coisas de valor e às mulheres rapavam-lhes a cabeça com uma navalha de barba, deixando-lhes apenas uma monha (mecha de cabelo) onde punham uma fita encarnada, davam-lhes um purgante e saíam com elas para a rua.

ANDRÉ DA SILVA SEGÃO
IDADE : 66 ANOS
Durante a guerra os fugitivos espanhóis escondiam-se nas galerias das minas, designadamente na de Aparis. Os que eram capturados eram transportados em camiões. Por vezes, alguns mais afoitos, atiravam-se para o chão com eles em andamento, com medo de virem a ser mortos e parece que assim alguns conseguiram escapar.
Sabia-se que aos homens os matavam e às mulheres cortavam-lhes os cabelos, davam-lhes purgantes e passeavam-nas pelas ruas, evidenciando os efeitos do purgante...

ANTÓNIO CHARRAMA LOPES
SAPATEIRO
IDADE : 72 ANOS
Antes da guerra havia muito mais gente em Barrancos, visto que vivia muita gente no campo.
Aqui produzia-se muito trigo, tendo o Sr. António Vasquez recebido um prémio por ter sido o maior produtor de trigo português.
Durante o período da guerra, aqui em Barrancos, as pessoas viviam com muitas dificuldades económicas, havendo muitos pedintes, não só portugueses como espanhóis.
Os géneros de primeira necessidade estavam racionados e para os comprar, cada pessoa possuía uma caderneta (1 litro de azeite por mês, meio pão por semana por pessoa, etc).
Havia nos campos da Coitadinha um campo de concentração, que chegou a ter mais de 1000 refugiados, mais tarde levados para Tarragona por camiões espanhóis. Quando o campo de refugiados deixou de existir, os fugitivos eram apanhados pelas autoridades portuguesas e entregues na fronteira aos soldados de Franco; outros eram fuzilados logo ali, como aconteceu numa propriedade fronteiriça (Canto de Cima) onde mataram 3 pessoas na presença de portugueses, tendo estes que as enterrar para evitar que os corpos fossem comidos pelos bichos..
As pessoas que ajudavam os espanhóis "rojos" eram perseguidas pela Pide.

ANTÓNIO COCO OLIVEIRA
IDADE : 76 ANOS
Um homem cá de Barrancos, que ainda está vivo, passou tanto durante a guerra que ouvindo um dia tiros que eu e meus companheiros de caça dávamos, começou a fugir, pensando que havia alguém à sua procura.

ANTÓNIO RAMOS
MINEIRO
IDADE : 65 ANOS
Na Mofedinha havia uma cantina feita de madeira e chapa onde, depois da guerra acabar eu ia com o meu tio levar café que os espanhóis compravam a dez tostões a arroba.
A minha mãe tinha uma irmã casada em Encinasola, chamada Maria e tinha três filhas: a Maria, a Dolores e a Isabel, esta apenas com 8 meses quando a guerra começou. Uma noite, o meu tio, trouxe a mais pequenina para Barrancos para que a minha mãe ficasse com ela. Às outras duas filhas raparam-lhes a cabeça com uma navalha de fazer a barba, deram-lhes um purgante, tiraram-lhes a roupa e, assim, preparam-se para as passear na rua. O meu Tio deu-lhes então uma saca de café que tinha escondido e eles deixaram de molestar as minhas primas. Puseram uma fita branca na porta da rua e nunca mais os incomodaram.

ANTÓNIO RAMOS MONTEIRO
IDADE : 73 ANOS
Durante a guerra havia muitas famílias espanholas com dinheiro, escondidas em casa de particulares. Nas Russianas, num local chamado Mofedinha - Figura 5, havia um campo de concentração para onde eram levados os fugitivos, sendo depois transportados em camiões para Tarragona, onde eram fuzilados.
Durante a guerra civil, éramos nós ainda pequenos, os meus pais estavam no campo. Um dia apareceu um homem fugido da guerra e os meus pais esconderam-no num monte de palha e ali permaneceu durante quarenta dias. Só de noite é que nós lhe levávamos comida.

CANDELÁRIA
IDADE : 80 ANOS
Os meus pais viviam num monte, onde um dia apareceu um fugitivo de guerra, ferido, faminto, sujo e cheirando muito mal, de seu nome Gabriel.
Esconderam-no num monte abandonado que havia ali perto e que também era de nossa propriedade, onde ficou durante muito tempo, partindo depois para Valência.
O homem nunca saía, não podia fazer lume e só tinha um buraco na porta que era a entrada dos gatos, por onde eu e a minha família lhe levávamos água e entregávamos a muda de roupa lavada.
Os meus irmãos iam lá à noite levar-lhe comida.
Alguns anos passados, depois da guerra acabar, casei-me e mudei-me com o meu marido e meus dois filhos para outro monte, mas ainda havia muita fome e miséria. Certa noite ouvi os meus cães a ladrar e, de súbito, apareceram dois homens à porta, dizendo-se com muita fome; apesar de receosa, resolvi-me a dar-lhes comer. Depois de muito conversarmos, descobri que um deles era o Gabriel que eu, quando jovem, ajudara. O homem ficou comovido, e abraçou-me dizendo: "gracias por tudo lo que hacieron por mi jamás lo esquecere".
A minha tia contava que havia uma família que para não lhe levarem o filho, esconderam-no dentro de uma tarefa que enterraram no quintal, aí ficando durante muito tempo, o que lhe veio a custar a vida, pois a humidade era muita e ele acabou por adoecer e morrer.
Perto da casa da minha Tia (em Rio Tinto), havia uma cadeia, e à noite, através das fendas da porta, ela via chegar os camiões para onde atiravam os prisioneiros, todos atados uns aos outros, para os levarem para o cemitério onde eram fuzilados. Uma noite, um dos prisioneiros disse qualquer coisa aos guardas ao que eles reagiram rompendo-lhe a camisa aos pedaços e obrigando-o a comê-la.
Minha tia e primas (que viviam em Espanha), para que não lhes fizessem mal, foram voluntárias para enfermeiras para fazer serviço nos hospitais.
Durante a guerra, era eu ainda bem nova, minha mãe, irmãs e eu própria cozíamos pão para vender aos espanhóis. Íamos levar o pão a uma casa a que chamavam "posto de despacho" onde os guardas no-lo compravam, pagando bem e vendendo-o depois na fronteira aos espanhóis.
Aqui, em minha casa, tivemos, nessa altura, uma tia minha, as filhas (minhas primas) e uma neta, que estavam já há alguns anos radicadas em Rio Tinto. Tinham fugido por causa da guerra. Um dia a minha prima recebeu a notícia da morte do seu namorado, que estava na frente de batalha. Tinham-lhe rebentado os ouvidos, com o disparo de um canhão e, não resistindo, faleceu. Havia muitas famílias que estavam praticamente todas na guerra. Uns amigos espanhóis desta minha Tia, tinham todos os filhos na guerra, à excepção do mais novo, porque tinha muito medo da guerra e ia fugindo, apesar de já ter sido várias vezes procurado pelas autoridades. A família resolveu então escondê-lo em casa de forma a que não o conseguissem encontrar. Construíram um tecto falso, feito com tábuas penduradas do tecto verdadeiro, havendo entre eles uma distância de cerca de um metro. Depois, revestiram o tecto com um pano, e nesse habitáculo improvisado ele ali viveu, ininterruptamente, durante seis meses.
Várias vezes foram à sua procura, sem o terem achado, até que um dia, já quase no fim da guerra, por denúncia, foram procurá-lo e finalmente encontraram-no. Não acreditaram contudo que o rapaz ali tivesse vivido durante tanto tempo e, como a guerra praticamente havia acabado, esqueceram o incidente e deixaram o rapaz em paz.

CATARINA BOSSA RICO
DOMÉSTICA
IDADE : 83 ANOS
Todos os barranquenhos, de uma maneira geral, levavam comida aos espanhóis que se encontravam nas "raias" da fronteira; em contrapartida, quando as autoridades apanhavam os portugueses em território espanhol, chicoteavam-nos.
Com o decorrer do tempo chegou-se à situação de quase não haver comida em Barrancos, agravado pelo facto de haver racionamento imposto pelo nosso governo.
Nessa altura também se fazia pão de milho para as pessoas e, com o farelo (perruma) misturado com gordura, alimentavam-se os cães.
Os espanhóis quando vinham fazer incursões a Portugal em busca de comida, até a comida dos cães chegavam a roubar.
Em Encinasola, para que se avistasse o inimigo (tropas franquistas) ao longe e tivessem tempo para fugir, estava um homem de vigia na torre da igreja, para dar o alerta, tocando o sino.
Um dia esse vigia detectou uma nuvem de pó na estrada e tocou de imediato o sino, o que desencadeou uma debandada geral de todo o povo para Barrancos. Mais tarde veio a saber-se que tinha sido um falso alarme motivado por um burro que espojando-se, tinha levantado a poeira.

CONSTANTINA DURÃO
CONTRABANDISTA
IDADE : 66 ANOS
Quando em 1936 começou a guerra de Espanha, fugiu muita gente para Barrancos, com medo e fome. Aquilo era um verdadeiro horror, só quem viveu nessa altura consegue ajuizar o que eu quero dizer.
A fronteira com Espanha estava permanentemente guardada por soldados para não deixar passar ninguém, prendendo todos os que o tentavam.
Havia várias prisões em Barrancos, uma delas era na rua da Cruz e a porta tinha um buraco para os gatos entrarem.
Aí prenderam uma mulher grávida chamada Frati. Quando estava para dar à luz, começou a gritar pedindo ajuda a uma velhinha chamada srª Domingas que foi pressurosa pedir ajuda a pessoas mais influentes. Quando chegaram, Frati já havia dado à luz. Foi então levada até à fronteira pois em Portugal ela não poderia permanecer (?). Soube-se depois que quando baptizou a criança deu-lhe o nome de Portugal.
Aqui em Barrancos também sofríamos e bem, as consequências da Guerra de Espanha; não só não tínhamos de comer, como tínhamos medo de ir para o campo, nunca sabíamos o que nos podia acontecer. A srª Joana, moradora na rua de S. Bento, nº 57, foi lavar roupa ao barranco do Cansa Lobos que fica junto à fronteira. Aí foi apanhada por um carabineiro que a violou e a afogou na ribeira.
Onde é hoje o correio era um posto do exército, onde um polícia prendeu um fugitivo fechando-o na casa de banho. A minha mãe que fazia a limpeza no edifício, ao despejar a água de lavar o chão, viu o espanhol e resolveu-se a ajudá-lo.
Para que o polícia não desconfiasse dela, manifestou-lhe o medo que tinha do espanhol e quando foi pela última vez à casa de banho, disse ao prisioneiro que subisse pelas escadas que iam dar à torre, para depois a descer pela corda do relógio, porque ela deixaria a porta de acesso à escada principal aberta. Assim o espanhol conseguiu escapar.

DOLORES CHARRAMA HERMENEGILDO
DOMÉSTICA
IDADE : 88 ANOS
Estávamos habitualmente no campo, quando víamos vir os espanhóis fugidos e que nos contavam os horrores de que se tentavam distanciar.
Um grupo que uma vez vimos passar foi recolhido pela Srª Remédios, onde estiveram muito tempo.
Quando íamos lavar roupa para os barrancos próximo da fronteira, acontecia, por vezes, vermos aqueles homens com as espingardas. Nós tínhamos pavor só de os ver; guardávamos a roupa, às vezes até ainda suja, e fugíamos a bom fugir.
Os espanhóis vinham de Aroche a pedir que lhe dessem qualquer alimento, mesmo as cascas das batatas, para fazerem sopa. Muitas vezes traziam objectos para trocar por alimentos.
O Sr. André Garcia muitas vezes mandava os criados fazerem pão para dar aos espanhóis que vinham pedir alimentos, mas que ninguém soubesse quem lhes mandava dar o pão, por causa das nossas autoridades.

FELIX CAEIRO
CAÇADOR
IDADE 83 ANOS
Estava eu um dia no campo, quando encontrei uma mulher, com duas crianças, que vinham fugidas de Espanha. A mulher trazia vestida uma saca de sarapilheira, toda rota. Como estavam esfomeadas dei-lhes o pão e o conduto que trazia comigo.
Largos meses depois deste incidente, que infelizmente era frequente naquela altura, a referida mulher e as crianças foram à minha procura, para me agradecerem o que eu havia feito. Pareciam outras, devidamente lavadas e vestidas. Trouxeram-me como prenda dois maços de tabaco, o que na altura constituía, de facto, um bem presente.
Um casal nosso amigo, no tempo da guerra, veio para cá fugido. Como tinham dinheiro, alugaram uma casa aqui em Barrancos. Ele era advogado e vivia em Oliva, trabalhando em Terragona.
Ao fim de um mês de cá estarem, ouve muitas pessoas que regressaram a Tarragona, mas eles não quiseram ir porque já se achavam velhos e não se estavam em condições de os acompanhar.
Então nós fomos levá-los à fronteira, montados em dois burros. Quando lá chegámos já lá estava um carro à espera deles. Eles despediram-se e deram-me um duro de prata.
Vim a saber depois de chegarem a Tarragona foram os dois mortos.

FRANCISCO PORTA AGUDO
TRABALHADORA RURAL
IDADE : 91 ANOS
Durante a guerra de Espanha, esteve aquartelado no monte da Coitadinha, uma força militar do regimento de Beja comandada pelo tenente Soares. Um dia, uma força militar espanhola entrou em Portugal "caçando" os fugitivos, espancando e matando as pessoas que estavam nas malhadas o que quase originou um confronto armado entre as duas forças. O tenente Soares hasteou então uma bandeira branca, o que levou os soldados espanhóis a refrearem o seu ímpeto e a debandarem, não sem antes terem matado um cavalo português.
Naquele acampamento, os espanhóis que lá estavam presos eram tratados pelo dr. A. Fernandes, médico de Barrancos que para esse efeito se deslocava à Coitadinha.
Em Oliva de la Frontera, as pessoas eram levadas para o cemitério, atavam-nas e matavam-nas. Numa das vezes levaram um grupo de pessoas, entre elas uma rapariga e seu primo e ataram-nos juntos, já devidamente preparados para serem fuzilados, com as cabeças rapadas apenas com uma mecha de cabelo. O primo, sem que os guardas se apercebessem, desatou as mãos à prima e assim, quando dispararam, ela atirou-se ao chão fingindo-se morta. Todos os outros morreram e ela, assim que pôde, fugiu para Portugal e veio ter ao monte da Coitadinha, onde não podia ficar porque já havia muita gente no acampamento; então ela pedia que a matassem ali, pois não queria morrer em Espanha nas mãos dos assassinos. O tenente Soares, perante isto, acolheu-a, acabando por ficar muito tempo no acampamento.
Havia fugitivos espanhóis que andavam escondidos nos campos e a quem os ganadeiros davam comida, durante a noite. Para se encontrarem no escuro tinham um sinal combinado e que consistia em baterem duas pedras, uma contra a outra. Depois de comerem, voltavam a esconder-se até ao outro dia.

FRANCISCO ABADE RIBEIRO
TRABALHADOR RURAL
IDADE : 71 ANOS
Meus pais, barranquenhos de nascença, estavam emigrados em Aroche, Espanha. Quando prenderam o meu pai, tinha eu 14 anos, tive de fugir para Barrancos com minha avó e minha tia Emília, sendo acolhido por uma prima que morava na casa onde hoje é a Câmara Municipal, começando, desde logo, a trabalhar na torrefacção do café, porque a vida era má e todos tínhamos de trabalhar, quando havia trabalho, para sobreviver.
Dois anos mais tarde apareceu meu pai num estado lastimoso, ferido e doente. Tinha sido feito prisioneiro e fora levado para o cemitério com mais 29 pessoas para ser fuzilado. Já estava encostado à parede do cemitério com as mãos atadas, quando chegou um oficial que vendo que na lista havia um português, perguntou quem era e mandou-o libertar. O terror porque passou foi tal que perdeu "o seu sentido" e quando chegou a Barrancos vinha cheio de feridas e doente.

FRANCISCO NUNES GONÇALVES
IDADE 79 ANOS
O meu pai era cabreiro e, andando um dia com as rêzes no mato encontrou um homem que estava escondido e que vinha fugido de Espanha. Ele queria ajudá-lo mas não sabia como, até que se lembrou de me dizer para eu lhe preparar todos os dias um bocado de pão, porque ia passar a ir à caça. Eu estranhei, mas não lhe perguntei nada e só passados alguns anos é que o meu Pai me contou que tinha encontrado um Espanhol escondido debaixo de uma lapa e o pão era para o ajudar a sobreviver.

FRANCISCO NUNES PICA
TRABALHADOR RURAL
IDADE : 73 ANOS
Havia irmãos de partidos diferentes que se matavam uns aos outros, havendo uma canção que dizia:

“Tengo un hermano en los rojos,
outro en los nacionales;
se tiran tiros uno al outro
y quién lo sufre es mi madre!”

As fronteiras eram guardadas pelo regimento de infantaria 17 de Beja e pela guarda nacional republicana.
Em Espanha, durante a guerra civil, os soldados da falange, às mulheres, cortavam-lhes o cabelo, os seios, davam-lhes purgantes e passeavam-nas nas ruas, muitas vezes nuas, durante o período de acção dos purgantes... . Aos homens levavam-nos para o cemitério e fuzilavam-nos.

HENRIQUE PICA CARLOS
TRABALHADOR RURAL
68 ANOS
Durante a guerra civil espanhola estiveram tropas portuguesas (Infantaria 17 de Beja) aquarteladas na escola de Barrancos, pelo que durante uns tempos não houve aulas.
Os espanhóis com mais dinheiro eram acolhidos na casa dos ricos, os pobres andavam escondidos no mato e à noite vinham a Barrancos pedir comida e agasalho.
...Mais tarde vieram para Barrancos polícias "muito terríveis para o povo" (sic) que procuravam saber, por denúncia, quem protegia Espanhóis. Quando conseguiam apanhar algum levavam-no para um sítio chamado a Malhada das Queimadas, na Coitadinha. Mais tarde vinham camiões e transportavam-nos para Tarragona.
Havia muita miséria em Barrancos e muitas pessoas dedicavam-se a contrabandear pão, farinha, café e açúcar que os espanhóis pagavam com duros de prata.

FRANCISCO SANTOS DAMIÃO
IDADE : 88 ANOS
Em Oliva vivia um rapaz barranquenho que sendo comunista, quando começou a guerra, teve que deixar a família e fugir para Barrancos para o monte das Arrancadas, propriedade da família Fialho, onde vivia um seu cunhado. O Sr. Fialho, porém, queria que o rapaz voltasse para Espanha e, contra a vontade deste, convenceu-o que levando uma carta sua, os espanhóis não o matariam (ele não sabia ler). Assim que chegou à fronteira e os espanhóis leram a carta, mataram-no imediatamente.
Eu trabalhava na altura na Mina de Aparis. Uma tarde apareceram lá quatro mulheres espanholas que vinham fugidas e estavam cheias de fome. Estava lá connosco um filho do tio Andrés Nina que era o dono da propriedade e como tinha morrido uma ovelha, ele mandou-a cozinhar para as mulheres. As pobres, como tinham muita fome, devem ter comido de mais o que lhes causou sérios problemas gastro-intestinais, mas como não podiam ir ao médico, tiveram de ficar na mina durante uns três ou quatro dias até se restabelecerem e continuarem a sua fuga.

HENRIQUE PICA CARLOS
TRABALHADOR RURAL
IDADE : 68 ANOS
Durante a guerra civil de Espanha estiveram tropas portuguesas de Infantaria 17 aquarteladas na Escola Primária de Barrancos, pelo que, durante algum tempo, não houve aulas.
Os espanhóis com mais dinheiro eram acolhidos nas casas dos ricos e os pobres andavam escondidos no mato e à noite vinham a Barrancos pedir comida e agasalho.
Mais tarde vieram para Barrancos polícias que queriam que se denunciasse quem protegia os espanhóis.
Havia muita miséria em Barrancos e as pessoas dedicavam-se a contrabandear pão, farinha e açúcar que os espanhóis pagavam com duros de prata.

INÁCIO OLIVEIRA
IDADE : 80 ANOS
Havia em Barrancos algumas pessoas ricas e influentes que denunciavam os espanhóis, ajudando a fazer batidas ao homem na herdade da Contenda.
Foi encontrado um esqueleto na taloca de uma azinheira, de alguém que se refugiou e de lá não conseguiu sair. Foram também encontradas armas nos troncos das azinheiras e enterradas na areia, nas proximidades do rio.
O Alcaide de Encinasola tinha a alcunha de "El Talento" pois lá ia conseguindo acalmar os ânimos dos da direita
Em Barrancos apareceu um espanhol ferido que foi ajudado por pessoas de cá e quando recuperou, contava a sua história que começava assim:
"La noche que me mataram a mim, mataram a más dezassete..."aludindo a uma noite em que um tenente falangista mandou encostar os prisioneiros à parede e fuzilou-os. Aos que não morreram, encostou-lhes a arma à orelha e deu-lhes o "tiro de gracia".
Este homem ficou ferido mas não gemeu, passando por morto e quando os falangistas se foram embora, fugiu e veio até à Coitadinha onde foi tratado pelo médico, sabendo-se que depois foi para Tarragona.
...Durante a guerra uma mulher espanhola foi apanhada e ia ser fuzilada mas ao saberem que estava grávida "perdoaram-lhe a vida" (sic). Quando nasceu o filho puseram-lhe o nome de Salvador.
Um homem que era conhecido pela alcunha "Pantanero el Terror" matou um carabineiro e roubou-lhe a roupa. É evidente que os de Espanha puseram-lhe a cabeça a prémio. A quem aparecesse com a sua cabeça ganhava uma boa maquia em pesetas. O Sr. António Morrongo, barranquenho que estava em Stº Aleixo, ajudou na emboscada. Atraíram-no para a Contenda, embebedaram-no e chamaram os espanhóis que prontamente o fuzilaram.
De uma vez, em Espanha, foram feitos dezassete prisioneiros, algemados e atados e a maneira de se despedirem uns dos outros era "salud camarada", com lágrimas nos olhos.
Foram então conduzidos a um cemitério, em plena noite, por um tenente da "guardia civil". Libertados das algemas e das cordas, foram obrigados, cada um, a fazer uma cova e quando acabaram ficaram de pé, cada um em sua cova. Os soldados dispararam e eles lá ficaram....

JOSÉ BOSSA BERGANO
IDADE : 80 ANOS
A guerra de Espanha foi uma guerra civil que acabou em 1938.
As pessoas ficaram sem haveres nenhuns. Os espanhóis vinham à fronteira comprar a comida (pão e farinha) que os portugueses levavam propositadamente para lhes vender.
Havia alguns portugueses que misturavam cimento na farinha para pesar mais; fizeram-se coisas muito mal feitas.
Os espanhóis quanto trigo apanhavam moíam-no em moinhos de café e assim faziam, nos fornos dos montes, bolos para comer. É que se levavam o trigo à moagem roubavam-lhe grande quantidade de farinha.
As fugitivas espanholas que andavam a pedir esmola de porta em porta, ofereciam-se para cuidar das crianças em troca de abrigo e comida.
Nas Russianas (Serra do Porto Lobo) havia um espanhol escondido que só saía de noite e andava a pedir pelas malhadas. Quando chegava o Inverno ia-se embora para Oliva para casa dele. Só sua mãe é que sabia que ele lá estava escondido e nunca conseguiram descobri-lo. Diz-se que morreu de velho.

JOSÉ LEAL PINTO
SAPATEIRO
IDADE : 74 ANOS
No tempo da guerra civil apenas existiam em Barrancos dois rádios, mas só podiam ouvir as notícias fora de horas e às escondidas.
Em Barrancos havia muita pobreza e muitas pessoas andavam de porta em porta a pedir um pouco de pão ou de toucinho, aos mais abastados.
Vivia-se um clima de terror e falar era quase impossível, pois não podiam estar juntas mais de três pessoas porque vinha a guarda republicana e mandava-os "desandar".
Quando havia eleições, se alguém precisava de emprego, manifestava o desejo de ir votar; era-lhe então entregue a "senha" de voto já com o candidato escolhido pelo patrão e às escondidas.
Os falangistas iam buscar as pessoas a casa principalmente durante à noite e levavam-nas para o cemitério. Punham-nas em fila e matavam-nas.
Havia muita fome e muita miséria. Os fugitivos andavam escondidos no meio do mato, nas serras, só saindo à noite, à procura de alimento, pois faziam-lhes batidas como se fazem aos javalis.
No Canto de Cima (?) propriedade portuguesa junto da fronteira, foi morto um fugitivo e sepultado no campo como um animal.
Havia em Barrancos muitos fugitivos de Encinasola, Oliva e Gerez, recolhidos em casas particulares.
Em Oliva havia um castrador a quem os falangistas fizeram o mesmo que este fazia aos animais.
Apareceu uma fugitiva com duas crianças pequenas, famintas, rotas e com os pés a sangrar. Era rica, e os falangistas (?) tinham-lhe assassinado o marido e roubado duas grandes propriedades. Foi avisada de que iria ser presa e por isso conseguiu escapar, mas apenas com o dinheiro que tinha nos bolsos.
Nota: Alguns contrabandistas portugueses misturavam cinza ou cimento na farinha que vendiam aos espanhóis.

JOSÉ MALENO GUERREIRO
ALMOCREVE
IDADE : 74 ANOS
Na fronteira de Encinasola e Barrancos havia carabineiros e soldados falangistas para impedir a passagem de fugitivos.
Havia espanhóis escondidos da fraga do castelo que só saíam durante a noite para caçar. Até cobras chegavam a comer.
Em 1938 vieram para a herdade da Coitadinha soldados do Regimento de Beja, entre os quais o tenente Soares.
Alguns fugitivos espanhóis fizeram barracas de mato e acamparam junto ao monte da Coitadinha, só saindo de noite para pedir comida nos montes mais próximos.
Uma noite veio um camião espanhol, apanharam-nos e levaram-nos para Tarragona para serem fuzilados. Apenas um conseguiu escapar, porque saltou do camião em andamento e assim conseguiu fugir, tendo dito mais tarde que todos os outros haviam sido fuzilados..
Depois de terem levado estas pessoas, fui queimar o acampamento e encontrei, enterradas na areia, um par de esporas.

JOSÉ PATRÍCIO SIMÕES
TRABALHADOR RURAL
IDADE: 84 ANOS
Em Rosal de La Frontera vivia um casal num monte e o marido, por razões políticas, andava fugido e só aparecia de quando em vez, para vêr a sua mulher. No entretanto a mulher ficou grávida e um dia os "terroristas" foram ao monte à procura do marido. Ela não queria dizer onde o marido se escondia, mas depois de muito instada e de ter sido ameaçada de morte, lá acabou por relevar o local do esconderijo. Então eles foram à procura do homem, encontraram-no, trouxeram-no para junto da mulher e, sem qualquer piedade, mataram os dois.

JOSÉ TORRADO GUERREIRO
IDADE : 72 ANOS
A guerra começou em 18 de Julho de 1936. Foi uma guerra trágica, em que fuzilaram muitos homens e "pelaram" muitas mulheres.
Na Coitadinha e na Mofedinha, havia campos de concentração para espanhóis.
Em Setembro de 1936 foi quando as pessoas de Oliva fugiram para Portugal.
Encinasola era pela direita e Oliva pela esquerda.
De noite, os soldados espanhóis levavam os presos para o cemitério a fuzilavam-nos. Um homem de Buguilhos foi atingido apenas de raspão por um tiro e, fingindo-se morto, conseguiu fugir, salvando-se.
Tudo era pretexto para matar. Um guarda civil de nome Clemente apanhou um rapazito com 3 ou 4 quilos de café e por esse facto matou-o.

MARGARIDA GOMES GRACIA
81 ANOS
Eu vivia com meus pais fora de Barrancos. Um dia, ao entrar no Povo, demos com uma grande multidão de Espanhóis que buscavam agasalho e socorro. Fugiam da guerra. Essas pessoas vinham quase todas descalças, com os pés cheios de sangue e com os filhos nos braços.

Algumas pessoas vinham todas feridas e os barranquenhos, conforme as suas possibilidades, davam-lhes agasalho, comida e roupa para se agasalharem. Passados dias começaram a chegar alguns dos seus familiares que os vinham buscar para regressarem a Espanha.

MANUEL RODRIGUES
TRABALHADOR RURAL
IDADE : 69 ANOS
No ano de 1937 (?), quando rebentou a guerra, veio para Barrancos um destacamento militar do Regimento de Infantaria de Beja, com a missão de patrulhar a fronteira e não deixar vir fugitivos de Espanha para Portugal.
Um dos movimentos de que tenho conhecimento foi o estabelecimento de uma linha de soldados, ao longo da fronteira, desde a herdade do Canto de Cima até à junta da ribeira que fica próximo do castelo de Noudar. Essas forças integravam três soldados naturais de Barrancos, dos quais apenas me lembro do nome de dois: Srs: João Garcia e André Tiago Godinho.
A 500 metros da ribeira, do lado espanhol, havia duas choças onde viviam dois casais. Um deles, o senhor Parron tinha duas filhas, mas um dia vieram os "rojos", levaram as duas raparigas, e sem que os pais pudessem fazer nada, violaram-nas, cortaram-lhes os peitos e depois mataram-nas. O pai foi sepultá-las junto a Valência. Mais ou menos dez dias passados, voltaram para fazer mal ao outro casal que tinha um filho e uma filha, mas o pai, o Sr. Gonsalez tinha uma espingarda e um cesto cheio de cartuchos e à medida que eles se aproximavam da porta da choça, ia-os matando, até que se foram embora. Pouco tempo depois veio uma avioneta pequena, largou uma bomba e ali morreram todos.
O meu Pai e minha família viviam numa choça perto da ponte da ribeira do Murtigão, tendo como vizinho o Sr. João Cantare.
Um dia, estando eles a jogar às cartas à porta da choça, chegou o alcaide de Oliva, sua mulher, filha e genro pedindo abrigo para aquela noite. O pai do Sr. Manuel com medo que chegasse algum guarda, disse-lhe que não podiam ali ficar, mas indicou-lhe outra choça abandonada no meio do mato e ali passaram aquela noite.
Eu e o Sr. João Cantare fomos-lhes levar pão e almoço e eles disseram-nos que tinham escondido duas espingardas na areia, ao pé da junta da ribeira porque se os apanhassem armados era pior.
No dia seguinte lá fomos, eu e o Sr. João, tentar reaver as espingardas. Estava muito calor nesse dia e os soldados portugueses estavam tranquilamente deitados à sombra. Fomos apanhando varas para fazer vassouras e ao encontrarmos as espingardas que estavam poucos centímetros enterradas na areia, pousámos o feixe de varas em cima delas para as atarmos junto com as varas. Nisto apareceu o tenente Soares a cavalo, ribeira abaixo, gritando para os soldados retomarem os seus postos e dirigindo-se a nós, mandou-nos embora dali. Claro que saímos a correr deixando as varas, as espingardas e até as cordas.
Nessa altura trabalhava eu numa propriedade junto à mina de Aparis, onde todos os dias apareciam cinco ou seis espanhóis pedindo comida. Eu dava-lhes o que podia porque nesse tempo a comida era racionada, tudo era adquirido com senhas. Um dia apareceram lá umas raparigas dos seus dezoito anos completamente nuas pois tinham sido violadas. Tapavam as partes íntimas com estevas e um lenço, mas a gente tinha medo de as recolher e pouco tínhamos para lhes dar.
Uma dia estando eu a descascar batatas para a sopa, chegaram duas mulheres e um homem cheios de fome, pedindo-me comida. Eu disse-lhes que esperassem que a sopa se cozesse, mas eles tinham tanta fome que comeram as cascas das batatas. Com pena deles não almocei e dei-lhes a sopa.
Aquando da construção da barragem na propriedade das Mercês, trabalhava lá uma quadrilha de doze ou treze homens acarretando pedra. Um dia apareceu um rapaz de uns oito anos, Manolo de seu nome, e sua irmã Anastácia de uns 15 anos. Andavam fugidos e ali estiveram muito tempo escondidos entre duas pedras, protegidos por aqueles homens que os alimentavam conforme podiam. O rapazito cantava-nos baixinho e cantava muito bem, e ainda hoje ninguém me tira da cabeça de que se tratava do Manolo Escoval .
Não havia açúcar. Por vezes adoçávamos o café com rebuçados.

MANUEL RODRIGUES BORRALHO
IDADE : 57 ANOS
E em Oliva vivia uma rapariga de 18 anos, costureira (filha da tia Pardala), que bordou uma bandeira comunista. Quando mais tarde os falangistas souberam, raparam-lhe a cabeça e violaram-na. Anos depois, já em Barrancos, esta senhora continuava a ser costureira e foi a própria que me contou este episódio.

MARCELINO SARAMAGO
TRABALHADOR RURAL
IDADE : 69 ANOS
Durante a guerra civil, muita gente fugiu para Barrancos. Nos montes e serras havia muita gente escondida. Só saiam de noite para procurar comida, comendo muitas vezes erva. Nós, os barranquenhos, sofríamos muito porque estávamos em contacto directo com os acontecimentos, sofrendo mesmo alguns e vendo sofrer os outros.
Os falangistas caçavam os fugitivos pelos cerros como se fossem coelhos. Quando os apanhavam prendiam-nos, levando-os para várias prisões (uma delas era na rua cónego Almeida). Depois vinha um camião e eram levados para Tarragona para serem fuzilados. O meu Pai recolheu uma rapariga espanhola que esteve escondida muito tempo na nossa casa, até que alguém a denunciou. Foi levada pela GNR e nunca mais souberam dela.

MARIA CORTEGANO BORRALHO
DOMÉSTICA
IDADE : 90 ANOS
Ao ser perguntada sobre a guerra civil de Espanha quis saber se poderia falar à vontade sem ser presa. Depois de ter sido sossegada, prontificou-se a tudo contar. E muito tenho para contar já que a tudo eu assisti de perto e embora não me tivessem feito mal fisicamente, o medo foi tanto que o senti na carne; medo sobretudo pelo meus filhos.
Casei no dia 30 de Setembro de 1930, com 26 anos de idade e fui viver para Espanha, por o meu marido ter arranjado emprego numa mina; ele era mineiro e trabalhava com as máquinas perfuradoras. Fomos à alfândega e depois de tudo arranjado, já com os burros carregados, partimos e lá fomos para o nosso destino.
Na mina o meu marido estava no turno que entrava às cinco horas da tarde e saía às seis horas da manhã. Vivíamos muito bem porque o meu marido tinha um bom ordenado e fazíamos a nossa seara e por assim dizer semeávamos tudo de que necessitávamos. Porque não havia lojas nas imediações da mina, tivemos de nos fazer sócios de uma cooperativa. Com o cartão da cooperativa obtínhamos 5 % de desconto nas compras que fizéssemos. No fim do mês eu tinha uma poupança em dinheiro de 50 duros, que era o máximo autorizado, por isso eu tinha de pôr o dinheiro em nome dos meus filhos. Nessa altura já eu tinha os meus primeiros dois filhos: o Manuel e a Isabel.
Uma manhã levantei-me para ir à água e comecei a ouvir muitos gritos e barulho. Entrei em casa, tínhamos uma casa só com uma divisão, tecto de canas e madeira e paredes de taipa, e vi meu marido que ainda deveria estar a trabalhar até às seis horas. Perguntei-lhe porque não estava a trabalhar e ele respondeu-me que diziam que tinha havido uma revolta dos sindicatos e que se ia apresentar no sindicato. Não vás homem, respondi-lhe, não sejas tonto, nós nem somos daqui !. Tinha começado a guerra.
Passados uns dias fomos chamados pelo consulado português e foi-nos dito que tinham pedido às autoridades espanholas para serem brandos para com os portugueses Tivemos de comprar uma bandeira portuguesa que nos custou 21 duros. Na porta da rua tínhamos de ter sempre expostas as bandeiras: espanhola por cima e a portuguesa por baixo.
Com o passar dos dias a guerra agravou-se e toda a gente fugiu para as serras com os poucos haveres que conseguia transportar. Nós fugimos para um barranco para ao menos termos água para beber. Os aviões passavam constantemente por cima de nós lançando bombas. A esses aviões nós chamávamos-lhes os aviões de caça.
Os meus filhos tinham tanto medo que nem pediam para comer. Nós tínhamos conhecimento que os falangistas puxavam fogo às casas, davam purgantes às mulheres, cortavam-lhes os cabelos e abusavam delas.
Os militares andavam com camionetas confiscando todo o género de alimentos, incluindo os animais. A uma família espanhola que vivia perto de nós até a criada lhes levaram; não se sabe porquê, nesse dia devolveram-lhes alguns bichos que já tinham na camioneta, mas a criada não, a essa mataram-na. A guerra durou mais de 4 anos e meio.
A farda dos falangistas era verde com um gorro de bico.
Estivemos dois anos sem comer pão, íamos subsistindo comendo ervas do campo e algum bicho morto pelas bombas que apanhávamos. Ficalho ficava perto mas não podíamos lá ir.
A mim levaram-me a seara toda que tínhamos apanhado.
Tínhamos de andar com o emblema de franco no peito e com um alfinete com três fitas penduradas: uma vermelha, outra verde e outra ainda amarela, que são as cores da bandeira portuguesa.
À porta de casa, como disse, tínhamos as bandeiras espanhola e portuguesa; então os falangistas iam a passar, viam as bandeiras e gritavam: para a frente !
O regime de franco matava e fazia horrores às pessoas.
Nessa altura eu estava grávida da minha filha hoje chamada Angela e tive-a sem a ajuda de ninguém, numa "chafurda" com água a correr por baixo.
Quando a guerra por fim acabou tivemos de nos apresentar no consulado para eles saberem ao certo quantos portugueses tinham morrido durante a guerra. Tivemos também, nessa altura, de entregar a bandeira e reembolsaram-nos com metade do que ela havia custado.
Nos povos festejava-se a paz.
Depois que a guerra acabou os falangistas até nos tratavam bem, mas eu jamais esquecerei o que vivi durante esses anos. Tantos horrores e tanto sangue.
Só espero e desejo que nunca mais exista uma coisa assim.

MARIA DAS DORES ALCARIO BORRALHO
TRABALHADORA RURAL
IDADE : 79 ANOS
Quando da guerra civil de Espanha, em Aroche havia um castelo que tinha dentro uma praça de touros. Foi nessa praça de touros que os pobres juntaram os ricos "para lhes puxar fogo". No entretanto chegou de Salto a guarda e soltaram os ricos e prenderam os pobres. A essas mulheres que foram presas os falangistas obrigaram-nas a beber um purgante constituído por pepino picado misturado com meio litro de óleo de rícino. Ataram-lhes as saias à cintura, raparam-lhes a cabeça deixando apenas uma mecha de cabelo (monha) onde prendiam uma fita encarnada e passearam-nas pelas ruas, obrigando-as a cantarem o hino da falange.

MARIANA LOPEZ TORRADO
DOMÉSTICA
IDADE : 63 ANOS
O Sr. Monteiro, morador na rua Cónego Almeida, em Barrancos, tinha três filhos, o mais novo dos quais, Leopoldo, quando tinha cerca de vinte anos alistou-se na falange espanhola. Quando apanhava crianças atirava-as ao ar e furava-as com a espada; às mulheres violava-as, cortava-lhes os peitos e matava-as. Três mulheres espanholas preferiram atirar-se a um poço do que serem apanhadas por ele.
O polícia Marques andava sempre à paisana montado num cavalo muito grande, encarnado, e com uma vara na mão. Durante a guerra matava todos os espanhóis que via e mesmo após a guerra, no período mais intenso de contrabando, não deixava passar ninguém.
Recordo-me bem de ver, do Alto de S. Bento, os falangistas fardados de verde, com um pompom vermelho no bivaque, a cavalo, dando caça aos fugitivos como se de coelhos se tratassem.

MARIA COSTA
EMPREGADA DOMÉSTICA
IDADE 76 ANOS
Durante a guerra civil de Espanha, aqui em Barrrancos havia uma prisão. Ficava na Rua Cónego Almeida, no prédio onde morava o Sr. Monteiro. Era no primeiro andar desse edifício. Havia lá muitos homens presos e as mulheres estavam em casa da Senhora Remédios que era no Largo de S. Sebastião sendo elas que cozinhavam o que comiam.
Durante a noite, os populares levavam comida (sopa) aos presos numa panela de barro. Com uma corda, eles puxavam a comida para cima.
Um dia veio um camião e levaram os homens para serem fuzilados em Huelva. Aquilo foi um horror, porque as mulheres queriam-se despedir dos seus maridos e os guardas não deixavam que elas se chegassem perto deles.

REMÉDIOS RAMOS
IDADE : 69 ANOS
Tinha 13 anos quando aconteceu esse horror que foi a guerra. Barrancos estava racionada, isto é, só nos davam, por dia, um tanto de pão, uma quarta de açúcar e uma quarta de arroz por pessoa.
Nós comprávamos o que podíamos nas lojas para depois irmos vender a Cansa Lobos que é uma zona ao pé da fronteira.
Os espanhóis pagavam muito bem. Trocavam a comida pelos objectos que tinham em casa. Chegavam a tirar os brincos das orelhas para trocar por um pouco de pão. Estavam, por assim dizer, mortos de fome.
Próximo do Murtigão, onde eu contrabandeava com meu pai, assisti a uma mulher que estava grávida e trazia vestida uma saca com 3 buracos. Quando teve a criança, não tinha nada para lhe vestir. Trouxemos então mãe e filho para o monte, onde um guarda, porque era bom, agasalhou os dois. Ao bebé vestimos uma toalha e rasgando um lençol fizemos ligaduras para apertar o umbigo. Para que o bebé não chorasse, com medo de o ouvirem, fazíamos chupetas com açúcar embrulhadas em pano branco. Durante dez dias conseguimos escondê-los, porém, alguém os denunciou e levaram-nos. A mãe tentava esconder o filho debaixo da saca, prendendo-o à altura da barriga, mas de nada serviu. Nunca mais soubemos deles, mas imaginamos o que lhes terá acontecido.
Um dia meu irmão José Manuel e o Florêncio foram para o campo e, no regresso, encontraram um homem morto. Vieram ao monte ter connosco a darem-nos a nova. Estavam lá nessa altura o Sr. Bilé e o cabo Rato. Concluiu-se depois que havia sido morto por um regimento espanhol que por ali havia passado.
Os meus irmãos foram abrir uma vala para enterrarem o pobre do homem, tendo a patrulha antes tentado verificar a sua identidade. Dentro dos bolsos tinha apenas um relógio e um lenço com as iniciais AV (em que A é uma inclusa do V). Com autorização dos guardas arrecadámos o espólio.
Oito meses volvidos, apareceu uma senhora que perguntava por um homem que tinha uma cicatriz no queixo e um sinal por debaixo do olho. Meu pai, que deus o perdoe, sem saber o que fazer, consultou os outros dois que tinham ajudado a dar-lhe sepultura. Decidiram então mostrar-lhe o espólio que ela reconheceu como sendo pertença do homem que procurava. É difícil descrever o estado em que aquela mulher ficou. Esteve connosco uns dias para que lhe mostrássemos o local onde estava sepultado o marido. Lá fomos e em boa hora, porquanto andava nas proximidades uma vara de porcos que por certo teria desenterrado o cadáver. Cobrimos a cova de pedra para que os porcos não conseguissem remover a terra.
Nesse sítio - Porto do Murtigão - ainda hoje existe, gravada numa azinheira, uma cruz que assinala o local onde está a sepultura que todos respeitam, por saberem o que lá está por debaixo.
Em Aroche obrigavam os homens a abrir uma vala, depois atavam-lhes os braços uns aos outros e fusilavam-nos.
Depois da guerra, muitos espanhóis viram-se obrigados a desfazerem-se dos seus haveres, tais como brincos e fios de ouro, loiças, etc, vendendo-os aos contrabandistas portugueses, a troco de pão e tecidos, havendo muitas pessoas que se aproveitaram desta situação para especular.
Na altura da guerra civil espanhola, morava eu no largo de S. Sebastião, onde havia uma prisão, hoje destruída, trabalhava na Contenda, junto à fronteira, onde havia cantinas autorizadas a vender aos espanhóis pão, café, farinha, tecidos, etc. Um dia os falangistas vieram e queimaram algumas searas e mataram os fugitivos que lá se acoitavam, seguindo depois para Aroche, onde apanharam 28 raparigas entre os 17 e 20 anos, raparam-lhes a cabeça com uma navalha de barba, deram-lhes um purgante e passearam-nas pelas ruas.
Algumas conseguiram fugir e vieram para Barrancos, onde foram recolhidas. O meu pai deu guarida a uma espanhola num palheiro. Esta espanhola, de nome Antónia Gora esteve escondida durante seis meses sem nunca ter visto ninguém além dos da casa, porque poderíamos ser todos presos. Um dia a sua a sua família conseguiu vir buscá-la.

TOMÁS MARQUES NOVALIO
IDADE 69 ANOS
A guerra rebentou nas minas de Salsa em Rio Tinto, para os lados de Aroche. Dizem que foi devido a uma revolução, na sequência da força que os sindicatos deram aos trabalhadores.
Todos os vadios que havia em Barrancos foram para Espanha ajudar a matar.
Em Oliva, em dois dias, mataram 70 espanhóis das direitas.
Na rua de S. Sebastião, em Barrancos, era onde estava instalada a "reguladora" que era onde distribuíam as senhas de racionamento às pessoas.

LÉXICO
Aparis - Mina de cobre situada a poucos quilómetros de Barrancos. Outrora, nesta região, havia em funcionamento muitas concessões mineiras.
Barranco - Linha de água profundamente escavado no terreno, normalmente só activa durante o período das chuvas.
Burra - Cofre para guardar dinheiro. Também se alude frequentemente a burra de ferro.
Cansa Lobos - Região situada próximo da fronteira com Espanha.
Cantina - Tratava-se de um pequeno comércio provisório, destinado a fornecer bens de consumo aos Espanhóis. Situado sempre próximo da fronteira estava instalado numa construção precária, com infra-estruturas de madeira, paredes de chapa ondulada e cobertura de colmo ou de chapa. Havia várias destas cantinas em funcionamento.
Canto de Cima - Herdade da região de Barrancos.
Chafurdo - Local para permanência de gado.
Coitadinha - Ou Coutadinha - Herdade na região de Barrancos. Sem dúvida que a origem do topónimo radicará na existência (outrora) de uma pequena coutada nesta herdade.
Contenda - Herdade existente na região de Barrancos, que deve o seu nome à contendo existente entre Portugal e Espanha, pela sua posse.
Malhada - Choupana de pastores.
Mofedinha - Topónimo da região de Barrancos.
Monha - Madeixa de cabelo.
Russianas - Herdade em Barrancos.

sexta-feira, 26 de março de 2010

terça-feira, 16 de março de 2010

Goya


Francisco José de Goya Y Lucientes

Pintor espanhol de finais do séc.18 e princípios do séc. 19.

Nasceu em Fuentedetodos, Aragão, Espanha, a 30 de Março de 1746; e morreu em Bordéus, França, a 16 de Abril de 1828.


Filho do mestre dourador José de Goya e de Gracia Lucientes, começou os estudos em Saragoça, ensinado pelo pintor José Luzán. Mais tarde, em Madrid, foi pupilo do pintor da corte espanhola Francisco Bayeu, tendo casado com a irmã deste em Julho de 1773.
Em 1770 foi para Itália continuar os estudos, pelos seus próprios meios, regressando no ano seguinte a Saragoça, onde foi encarregado de pintar frescos para a Catedral local, este trabalho foi executado espaçadamente durante os dez anos seguintes, até que se incompatibilizou com a Junta da Fábrica [da Basílica de Nossa Senhora] do Pilar.
Em 1775, tendo passado a viver em Madrid, chamado pelo seu cunhado, Francisco Bayeu, foi encarregue de pintar a primeira série de cartões, de um lote que acabaria por chegar às 60 pinturas, para a Real Fábrica de Tapeçarias de Santa Bárbara. Neste trabalho foi dirigido pelo artista alemão Anton Raphael Mengs, um dos expoentes do Neoclassicismo, e director artístico da corte espanhola, com o título de Primeiro Pintor da Câmara.
Em 1780 foi eleito membro da Real Academia de São Fernando de Madrid, sendo admitido com um quadro intitulado «Cristo na Cruz».
Em 1785 tornou-se director-adjunto de pintura da Academia e no ano seguinte foi nomeado pintor do rei Carlos III. Desta época pertencem os primeiros retratos de personagens da corte espanhola, que começaram com o quadro do Conde de Floridablanca (1783), continuando com o retrato de «Carlos III, caçador» e que terminam com os quadros oficiais do novo rei, Carlos IV, e rainha, Maria Luísa (1789). Retratos em poses convencionais, mas de uma elegância que os relaciona com os retratos de Velasquez.
Nomeado Pintor da Câmara pelo novo rei de Espanha, Goya torna-se neste período, (que acabará em 1808, com a invasão francesa da Espanha), o artista mais bem sucedido de Espanha naquela época.
Em 1792, viajando pela Andaluzia, sem autorização real, adoece gravemente, só se restabelecendo em Abril de 1793, ficando surdo. São desta época as pinturas de gabinete que representam cenas de diversões típicas, mas que terminaram em 1799 com «O Manicómio». Dessa viagem pelo sul de Espanha nasce a amizade com a duquesa de Alba, que retratará, assim como ao seu marido, em 1795.
Em 1796 e 1797 Goya visitará em estadias prolongadas a duquesa de Alba nas suas propriedades na Andaluzia, começando a produzir as gravuras a que dará o nome de «Os Caprichos», e que acabarão por constituir uma longa série de 80 gravuras. Quando as termina, em Fevereiro de 1799, coloca-as à venda na loja de perfumes por baixo da sua casa em Madrid. Mas progressivamente vai retirando-as de venda, possivelmente por se reconhecer terem referências a pessoas conhecidas.
Em 31 de Outubro de 1799 foi nomeado Primeiro Pintor da Câmara, com direito a coche.
Em 1798, começa a sua segunda época de retratos de figuras públicas, pintando o ministro Jovellanos e o embaixador francês Guillemardet, passando pelo seu famoso retrato da família real espanhola (1800-1801) e terminando nos retratos, do marquês de San Adrián (1804) e de Bartilé Sureda (1806).
Em 1803 deu ao rei as chapas dos «Caprichos», em troca de uma pensão para o filho Francisco Xavier, nascido em Dezembro de 1784.
Em 1808, o general Palafox chama-o a Saragoça para pintar as ruínas e episódios da defesa heróica da cidade contra os franceses. Mas em Dezembro de 1809 Goya jura fidelidade a José Bonaparte, «nomeado» rei de Espanha pelo irmão Napoleão, imperador dos franceses, recebendo em 1811 a condecoração da Ordem Real de Espanha. É desta época a realização dos «Desastres da Guerra» que se prolongarão até 1820, e que, devido ao seu estilo impressionista influenciarão pintores franceses do século XIX, como Monet.
Em 1814, começando o seu processo de «purificação» das suspeitas de colaboracionismo com o regime do «rei José», entrega os primeiros testemunhos que declaram que Goya não era afecto ao governo intruso, pintando os quadros «O três de Maio ou a Carga dos Mamelucos» e os «Fuzilamentos da Moncloa», para perpetuar a resistência e a luta do povo espanhol contra Napoleão Bonaparte.

 Em Dezembro termina o quadro equestre do general Palafox.
No ano seguinte a Inquisição abre um processo por obscenidade pela suas «Majas», mas o pintor consegue a «purificação», sendo-lhe restituído a função de Primeiro Pintor da Câmara. Pinta vários retratos de Fernando VII, após a sua restauração, evocando melhor que ninguém a personalidade cruel do rei.
Com o fim do triénio liberal (1820-1823), o falhanço de uma nova tentativa de instauração de um regime liberal em Espanha (1824), e o reacender das perseguições, pede autorização para ir para França, para as Termas de Plombières, por motivos de saúde, partindo em Maio de 1824.
Em Setembro desse ano instala-se em Bordéus, morrendo em 1828.

fontes: Enciclopédia Britânica

sexta-feira, 12 de março de 2010

João Cristino da Silva

“Alto e esbelto, a sua bela cabeça de perfil judaico - ornada com uma basta cabeleira negra, anelada e romântica, e meio oculta sob as abas de um chapéu à Rubens, garbosamente inclinado sobre a orelha – aparecia e destacava-se de entre a multidão em todas as reuniões públicas, nas exposições, nos teatros, nos circos, porque este artista foi, de todos os que tenho conhecido, o mais mundano, e portanto o mais popular.”
Zacharias d’Aça – João Cristino da Silva.
Ocidente. Revista Ilustrada de Portugal e do estrangeiro. Lisboa Vol X (1887)

A obra de Cristino da Silva configura em meados do século XIX um dos primeiros sinais de uma vontade de modernidade, que o romantismo havia iniciado pelo Europa.

1829 – No dia 24 de Julho, João Cristino da Silva, filho de António Paulino da Silva, nasce na Rua da Saudade, em Alfama - Lisboa. O pai, proprietário e mestre de uma fábrica de fitas, assiste com orgulho ao despontar da vocação do seu filho para a pintura, que com as sobras das tintas realiza as suas primeiras experiências, e inscreve-o na Academia das Belas Artes de Lisboa. Também Sérgio (1838-1890), o seu filho mas novo, revela aptidão para a arte e muita habilidade para o desenho, mas dedica-se definitivamente à música e aos vinte anos é primeiro violoncelo na orquestra do Teatro de S. Carlos, mais tarde, exibe-se em concertos públicos e distingue-se como professor. Desequilíbrios nervosos de que padecia, tal como seu irmão João Cristino, agravaram-lhe uma vivência desordenada, uma irregularidade no trabalho, paralelamente è frequência de um café mal afamado na Rua do Socorro, onde tocava todas as noites e para onde levava Cristino.

1841 – Neste ano, matricula-se na Academia de Belas Artes de Lisboa e termina o curso preparatório nesta instituição em 1845, iniciando o curso de Pintura de História com António Manuel da Fonseca e de Paisagem e “Produtos Naturais”, com André Monteiro da Cruz.
1847 – Neste ano, Cristino revoltado com o ensino da Academia, especialmente com a convencional orientação de André Monteiro da Cruz, de temperamento brusco e pouco acolhedor, abandona os estudos, e ingressa nas oficinas do Arsenal do Exército, onde permaneceu um ano, até à morte do seu mestre. Neste mesmo ano abandona a pintura e constitui uma sociedade (uma ourivesaria na Rua da Prata, local de encontro dos artistas românticos). Em 1848 decide abandonar esta profissão.
1850 – Nestes primeiros anos, economicamente difíceis, Cristino é apoiado pelo amador de arte Hermann Moser.
1855 – Participa nas reuniões da comissão encarregada de escolher as obras a apresentar na Exposição Universal de Paris, no Palácio das Belas Artes.
Apresenta na exposição universal de Paris o quadro “Tableau représentant cinq artistes portugais à Sintra".

Pinta nas zonas do Buçaco e Coimbra.
1856 – Presta provas no concurso para Professor substituto da cadeira de Desenho, na Universidade de Coimbra, mas é preterido por Vítor Bastos.
Realiza o quadro A primeira impressão do artista, encomendado por D. Fernando, após a aquisição da obra Cinco artistas em Sintra.
1859 – Cristino vence o concurso para professor substituto da cadeira de Paisagem e Produtos Naturais da Academia das Belas Artes de Lisboa, onde apresenta Pastores e gado passando una ribeira e Flores e frutos, apesar da oposição de António Manuel da Fonseca, membro do júri, constituído também por Tomás da Anunciação, Pires da Fonte e Francisco Metrass.
1860 – Após a nomeação para professor substituto da cadeira de Paisagem e Produtos Naturais na Academia das Belas Artes de Lisboa, assiste à primeira conferência, a 30 de Outubro.
1862 – Apresenta sete obras com imagens do Tejo e do Mondego na primeira exposição da Sociedade Promotora das Belas Artes.
Esta sociedade, já projectada em 1853 por Manuel Maria Bordalo Pinheiro, inaugura a sua primeira exposição neste ano, mantendo-se um quarto de século, sempre com a participação de Cristino, Pedroso, Anunciação, Manuel Maria, Leonel, Resende, Thomasini, Newton, Keil, Girão, Ferreira Chaves e Lupi (este participa apenas até 1870).
1863 – Apresenta na segunda exposição da Sociedade Promotora das Belas Artes imagens de Coimbra, Santarém, de Lisboa, de Cascais e do Rio Lima.
1864 – Apresenta na terceira exposição da Sociedade Promotora das Belas Artes, vistas do Buçaco, Cascais, Sintra, Nazaré, S. Martinho, Coimbra, Leiria e cenas de costumes.
Casa com Maria Joana de Mesquita e Melo, filha do tesoureiro da Academia Real das Belas Artes, Conde de Melo. Desta união teve quatro filhos, e de uma outra, o artista João Ribeiro Cristino, membro do Grupo do Leão.
1865 – Na quarta exposição da S.P.B.A. apresenta imagens de Sintra, de Peniche, de Coimbra, da Nazaré e de Pintura de costumes e de História.
Obtém a medalha de 2ª. classe na Exposição Internacional do Porto ao apresentar a Paisagem tomada do Mondego e Flores e frutos. Considerando-se injustamente classificado, publica dois opúsculos referentes a duas visitas a esta exposição.
1866 – Na quinta exposição da S.P.B.A. exibe paisagens da serra do Montejunto, de Leiria, de Coimbra, de Sintra e imagens de costumes.
1867 – Apresenta na Exposição Universal de Paris As Barracas, obra adquirida por D. Fernando. Desloca-se a Paris e posteriormente à Suíça com um subsídio do Governo de 180 mil réis (40 libras), na única viagem que efectuou ao estrangeiro.
Na sexta exposição da S.P.B.A. exibe o esboceto do quadro apresentado em Paris e imagens de Peniche, do rio Sisandro, de Coimbra, de Santarém, da Arruda, de Agualva, do Ribatejo, do Tejo, de Sintra, um episódio de pintura de História e cenas de costumes.
1868 – Apresenta na sétima exposição da S.P.B.A. paisagens do Ribatejo, do Tejo, de Sintra, recordações da Suíça, um episódio de pintura de História e cenas de costumes. Com o catálogo desta exposição é publicada, como brinde, uma gravura sua, “Um sendeiro de 40 anos”.
1869 – Internamento em Rilhafoles,(actual Hospital Miguel Bombarda) no dia 25 de Novembro, às 10,30, após intempestivas cenas na Academia Real das Belas Artes de Lisboa, que abandona neste ano. Foram-lhe diagnosticadas “manias agitadas e delírios agudos”. Saiu desta Instituição um ano depois, a 9 de Janeiro de 1870.
1870 – Apresenta na oitava exposição da S.P.B.A. imagens de pescadores, de Coimbra e paisagens não identificadas.
1871 – Expõe em Madrid as obras Cruz Alta de Sintra e Fonte das Lágrimas. Oferece esta última pintura à rainha de Espanha.
1872 – Apresenta na nona exposição da S.P.B.A. imagens de Coimbra e um retrato.
1874 – Na décima Exposição da S.P.B.A. apresenta quatro obras da zona de Sintra e dos rios Tejo e Alviela.
1876 – Pouco antes de falecer, apresenta na undécima exposição da S.P.B.A. imagens do Ribatejo, de Sintra e de Coimbra.
1877 – Morre no dia 12 de Maio, vitimado por um ataque cardíaco.


Fonte:João Cristino da Silva (1829-77)
Maria de Aires Silveira
Helena Carvalhão Buescu
João Cristino da Silva e o Tema da Paisagem na Literatura Portuguesa de meados do Século XIX
Instituto Português de Museus - Museu do Chiado, Lisboa, 2000

Francisco de Zurbarán


FRANCISCO DE ZURBARÁN



1598-1664



Francisco de Zurbarán nasceu a 7 de Novembro de 1598 em Fuente de Cantos, Badajoz, Província da Estremadura, e morreu a 27 deAgosto de 1664 em Madrid.
Foi um genial pintor barroco espanhol.
Tal como Pedro Díaz de Villanueva, Bartolomé Esteban Murillo, José de Ribera e Diego Velázquez, este artista transmite na sua obra, com sublimes técnica e temas, quase inalteráveis durante toda a sua vida, a notável influência do chamado El Siglo de Oro nas artes, não só em Espanha como em toda a Europa.
Filho de um comerciante, iniciou em 1614 a sua formação, sendo aluno do conhecido pintor Pedro Díaz de Villanueva e mantendo-se ali cerca de três anos. Jovem, com dezasseis anos, teve oportunidade de aplicar e desenvolver os seus excepcionais dotes para o desenho, no atelier do pintor sevilhano.
Quando Zurbarán começou a sua formação, o panorama artístico em Espanha era muito fértil e criativo. Como tal, e incentivada pelas riquezas provenientes do continente americano que abundaram o país, Sevilha não foi excepção, sendo esta uma próspera e poderosa cidade tanto no comércio como nas artes, as quais, por apoio e mecenato dos clérigos e dos nobres, andavam de "vento em popa".
Assim que terminou a aprendizagem, regressou à sua cidade natal, onde, com dezanove anos, contraiu o seu primeiro matrimónio, com María Perez. Porém, esta faleceu alguns anos mais tarde e Zurbarán casou novamente em 1625, desta feita com Beatriz de Morales.
Mesmo não sendo muito conhecido, em 1626 recebeu uma encomenda de um convento sevilhano, de vinte e um quadros. O preço desta encomenda totalizou 380 ducados, sendo este uma soma demasiado baixa para tantos quadros. Porém, Zurbarán não cobrava o seu trabalho e sim a ínfima possibilidade de entrar para o restrito grupo de pintores que monopolizavam o circuito artístico e cultural na cidade de Sevilha. Tal proeza conseguiu, mais tarde, quando as suas sublimes e excepcionais capacidades começaram a ser reconhecidas, tendo conseguido, surpreendentemente, conquistar artisticamente a cidade de Madrid, onde entrou em contacto não só com o maior expoente da pintura espanhola como com toda a arte da Europa.
Faleceu em Madrid, finalmente reconhecido pela sua obra.
Fonte: .wikipedia.org/

Juan de Zurbarán



JUAN DE ZURBARÁN
1620-1649




Juan de Zurbarán nasceu em LLerena, Badajoz em 1620 e morreu em Sevilla em 1649.
Filho de Francisco de Zurbarán, teve a sua formação no atelier que seu pai possuía em Sevilla.
A influência paterna está patente em toda a sua obra.
A sua obra pictórica centrou-se nas naturezas mortas, género em que está considerado como um dos expoentes máximos do “Siglo de Oro Español”.
Em 1641, casou-se com Mariana de Cuadros, filha de um rico comerciante, e que morreria pouco depois.
A sua carreira foi repentinamente interrompida, pela morte prematura. Com apenas 29 anos, contraiu a peste, durante a epidemia que assolou Sevilla e em 1649 perdeu a vida, juntamente com alguns dos seus irmãos.
Fonte: ArteHistoria - cultural em espanhol

domingo, 7 de março de 2010

A Natureza-Morta na Europa

A Perspectiva das Coisas.
A Natureza-morta na Europa
Primeira parte: Séculos XVII – XVIII
12 de Fevereiro a 2 de Maio de 2010

 
 

O Museu Calouste Gulbenkian organiza actualmente uma ambiciosa exposição internacional dedicada ao tema da Pintura de Natureza-morta na Europa, sendo a primeira do género a realizar-se em Portugal. Intitulada “A Perspectiva das Coisas. A Natureza-morta na Europa” a mostra será apresentada em duas partes e é constituída por um conjunto de obras-primas de pintores europeus de renome, desde as origens do género até meados do século XX.
A primeira parte, a expor entre 12 de Fevereiro e 2 de Maio de 2010, reúne 71 pinturas dos séculos XVII e XVIII. A produção dos séculos XIX e XX será apresentada entre 21 de Outubro de 2011 e 8 de Janeiro de 2012.
A exposição pretende explorar os temas recorrentes da natureza-morta ao longo de quatro séculos de história: naturezas-mortas com frutos, caça, cozinhas e mesas de banquete, pintura de flores, instrumentos musicais, gabinetes de curiosidades, Vanitas e obras em trompe-l’oeil. A diversidade do tratamento artístico destes temas em diversos países será demonstrada através do confronto de obras em exposição, tais como as naturezas-mortas das pintoras Louise Moillon e Fede Galizia, ou as cenas de cozinha de Jean-Siméon Chardin e Luis Meléndez.
Entre outros pintores que cultivaram o género e que integram a exposição, contam-se Juan Sanchéz Cotán, Juan van der Hamen, Pieter Claesz, Juan Zurbarán, Rembrandt van Rijn, Antonio de Pereda, Nicolas Largillierre, Jean-Baptiste Oudry, Luis de Meléndez e Francisco de Goya.

Cesto com Frutas e Molho de Espargos
Óleo sobre painel, 53,3 x 71,3 cm
Louise Moillon (1610-1696)
Natureza Morta com Marmelo, Couve, Melão e Pepino
Óleo sobre tela, 69,2 x 85,1 cm
Juan Sánchez Cotán (1560-1627)

A Sobremesa de Barquilhos
Óleo sobre painel, 41 x 52 cm
Lubin Baugin (1612/1613-1663)

Cristo em Casa de Maria e de Marta
Óleo sobre madeira, 60 x 101,5 cm
Pieter Aertsen (1507/1508-1575)

Natureza  Morta com "Roemer" e Taça de Prata
Óleo sobre madeira, 42 x 59 cm
Pieter Claesz (1596/1597-1660)
 
Cesto de Frutas
Óleo sobre tela, 72 x 105 cm
Juan de Zurbarán (1620-1649)
Fonte: Cátálogo da Exposição