quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Castelo de Noudar

Num dos pontos mais orientais do território português, lá para as bandas do Guadiana, entre as ribeiras de “Murtiga” e de “Ardila”, jaz numa elevação sensível de terreno, defrontando como sentinela adormecida a raia de Espanha, numa ruína notável de arquitectura militar do século XIV. É Noudar!

GUSTAVO MATOS SEQUEIRA
In “Album Alentejano”


Fotografia de 2009, com o castelo já restaurado

CASTELO DE NOUDAR

Castelo de Noudar
Tu és nosso encanto.
O Rei D. Dinis
Foi assim que quis
Coroar Barrancos

Coroar Barrancos
Qu’é a nossa terra.
De mato cercado,
estás situado
No alto da serra.

No alto da serra,
E ninguém te ganha.
Sózinho e isolado,
Sem ser habitado
Olhando p’ra Espanha.

Cantando estes versos simples e bonitos, os naturais de Barrancos afirmam o orgulho natural que têm no castelo e na povoação onde mergulham profundamente as raízes da sua terra.

Situação geográfica

Num dos mais alcantilados cabeços de Barrancos, mais propriamente a noroeste desta povoação e junto à fronteira com Espanha, situa-se um castelo completamente isolado, contornado a norte e a sul, respectivamente, pelas ribeiras de Ardila e de Múrtega, que confluindo a ocidente vão formar o rio Ardila, cujo leito vai desembocar no Guadiana, perto de Moura.

Pouco conhecido, quase ninguém falava dele até há algum tempo atrás: é o CASTELO DE NOUDAR.

Situado em lugar de eleição, num ponto que se considera estratégico, ainda muito pouco se sabe do que ali se passou,não só antes da sua incorporação definitiva no reino de Portugal, em meados do século XIII, simultaneamente com Moura e Serpa, mas também posteriormente.

Desenho do castelo por Duarte D'Armas
(Livro das Fortalezas por Duarte D'Armas - Torre do Tombo, Lisboa)


Se quisermos fazer-lhe uma visita, chegados á entrada de Barrancos, há que seguir pelo itenerário que nos conduz à antiga “Vila de Noudar”, passando pelas propriedades de Russianas e da Coitadinha, depois de se atravessar a ribeira de Múrtega pela ponte que liga as suas margens no pitoresco lugar designado da Pipa.


É então que, a cerca de nove quilómetros de Barrancos, encontramos imponentes as muralhas do castelo, destacando-se a torre de menagem.


Relação cronológica de factos históricos

(Registo de alguns factos que atestam a importância demográfica e militar da “villa” medieval).

1167 - conquista da região por Gonçalo Mendes da Maia

1184 - Ofensiva almoada ao sul do rio Tejo, perdendo-se a região. Reconquistado aos mouros pelos castelhanos

1253 - tratado de paz entre os reis de Castela e Portugal que pôs fim ao diferendo suscitado pela posse do Algarve.

Noudar fica na posse de Castela

1283 - 4 de Março, doação de Afonso X (o Sábio) a sua filha D. Beatriz, de Moura, Serpa e Noudar

1295 - 16 de Dezembro, D. Dinis concede foral.

1297 - 12 de Setembro, Tratado de Alcañices para definição da linha de fronteiras.

1303 - 25 de Novembro, doação do castelo à Ordem de Avis. Início das obras.

1305 - 16 de Fevereiro, D. Afonso IV cede Aroche a Castela. Acentuam-se os problemas sociais da “contenda” (comedias).

1308 - 16 de Janeiro, conclusão das obras no castelo determinadas por D. Dinis. Iniciado o povoamento por carta outorgada pelo rei em que ali se fundava o primeiro couto de homiziados do reino.

1339 - Setembro, Diego Fernandez, pela Ordem de Santiago em Espanha, pôs apertado cerco a Noudar, que sucumbiu nos primeiros dias.

1347-50 - Sofrem-se as consequências da peste negra.

1370 - 29 de Janeiro, Frei Affonso Esteves, foi nomeado procurador da Ordem de Avis na questão da “contenda” (referente ao campo de Gamos a sul do castelo).

1372 - Pelo casamento de D. Fernando com Leonor de Teles, Noudar volta à posse da coroa de Portugal.

1383 - Após a morte de D. Fernando, Noudar volta à administração de Castela.

1385 - Sofre as contradições dos acontecimentos vividos em Portugal, mantendo-se leal a Castela.

1399 - Janeiro, com o reinado de D. João I reintegra-se na administração portuguesa, sendo rei o Mestre de Avis.

1400 - 18 de Maio, um inventário refere a existência de muito material de guerra na praça.

1403 - Revista a lei dos coutos, Noudar permanece com o mesmo estatuto.

1406 - A “villa” encontra-se um pouco despovoada.

1411 - Outubro, pelo acordo de paz com Castela é confirmada a sua posse nas terras de Portugal.

1415 - Os homiziados começam a ser canalizados para Ceuta.

1443 - 27 de Janeiro, um relatório de obras ao rei, refere reparações no castelo.

1446 - Gomez da Silva, alcaide de Noudar, foi destacado para Arzila.

1453/54 - A epidemia oriunda do norte de África alastra fortemente na região.

1475 - Incursões dos castelhanos que retiveram Noudar por três anos.

1477 - Martym Sepúlveda,fidalgo castelhano colocou-se ao lado do rei de Portugal e foi governador da praça.

1478 - Devolução da praça e reintegração no reino de Portugal.

1491 - 14 de Maio, fez-se uma demarcação entre as terras de Noudar e de Moura.

1493 - 20 de Fevereiro, inquirição tirada a respeito dos termos de Noudar e Encinasola.

1493 - 23 de Fevereiro, Pedro Afonso era Comendador e alcaide-mor de Noudar.

1493 - 16 de Março, uma inquirição acerca da aldeia de Barrancos em que Castela dizia ser sua, mas que era pertença de Barrancos. Os castelhanos moradores em Barrancos eram considerados traidores a Sevilha.

1500 - 5 de Dezembro, por contrato entre os moradores da vila de Noudar e a de Moura, ficou pertencendo a cada um destes concelhos metade das pastagens (comedias) da Defeza do Campo de Gamos.

1510 - 20 de Fevereiro, foram executadas novamente obras no castelo.

1510 - 2 de Novembro, auto de inquirição acerca da vinda dos castelhanos aos termos de Moura para lavrar e semear. Gomez da Silva era alcaide-mor de Noudar.

1513 - 28 de Julho, concedidos previlégios a Noudar, pela sua vigilância no foral de Serpa.

1513 - 17 de Outubro, Foral de D. Manuel.

1515 - 15 de Março, Bula Papal (Leão X) qu concedeu aos priores-mor insígnias pontificais com jurisdição especial no espiritual na vila de Noudar, além do temporal no convento de Avis.

1516 - 3 de Junho, Auto de posse do castelo com seu espólio, sendo nomeado alcaide Luís de Antas.

1527 - A vila é referenciada no Cadastro da População do Reyno como burgo importante.

1532 - A vila tinha 73 moradores, sendo comendador o Marquês de Torres Novas e alcaide Luís de Antas.

1542 - 14 de Outubro, primeira tentativa para resolução as questões da “”contenda” de Moura (Concordata de Moura)

1610 - A comenda de Noudar passa para a Casa Cadaval.

1639 - Tinha entre 200 a 300 vizinhos.

1640 - A fortificação foi reforçada por alguns abaluartados ao estilo da época.

1641 - A aldeia de Barrancos, termo de Noudar, foi arrasada por tropas portuguesas, por ordem do Governador das Armas do Alentejo.

1643 - 17 de Outubro, ameaças de tropas em Oliva contra Portugal, nomeadamente contra Noudar, para que os Portugueses não avançassem sobre Villa Nueva del Fresno.

1643 - 25 de Outubro, Villa Nueva del Fresno foi conquistada aos espanhóis e a sua conquista (ao fim de onze dias de refregas) foi considerada como um acto para segurança de Noudar, Safara, Stº. Aleixo, Moura e Mourão.

1644 - 15 de Agosto, o inimigo assestou as baterias sobre o castelo.

1646 - 16 de Março, deferido pelo Conselho de Guerra um pedido dos procuradores da corte da vila de Moura em que esta vila e Noudar fossem dotadas com a gente que em cortes lhes foi atribuída e que o Castelo de Noudar fosse aprovisionado com mantimentos para seis meses.

1646 - 4 de Agosto, o Governador do Alentejo pede ao rei autorização para constituir um terço de tropas em que é incluído pessoal de Noudar.

1647 - Tropas de Noudar reforçam a praça de Moura.

1660 - 23 de Junho, Rodrigo de Magalhães foi colocado como Capitão-mor na praça.

1661 - 14 de Dezembro, o Castelo de Noudar foi mandado guarnecer com oitenta infantes, munições e mantimentos.

1661 - 20 de Dezembro, a praça tem sido ameaçada de ataque pelas tropas castelhanas aquarteladas em Freixenal e Origana e continuou prevenida durante muito tempo.

1662 - A guarnição foi transferida para Elvas, deixando apenas o preciso para defender o castelo.

1668 - Finda a guerra apenas ficou uma guarnição de artilharia.

1704 - Tinha uma população de cerca de 400 vizinhos e misericórdia.

1707 - Cai em poder dos espanhóis pelos ataques das tropas do duque de Osuna, na sequência da Guerra da Sucessão.

1712 - 7 de Novembro, tratado de suspensão de armas entre o rei de Portugal (D. João V) e Castela.

1715 - Concretizou-se a promessa do rei espanhol de restituição do Castelo de Noudar com o seu território, com tantas munições de guerra e o mesmo número e calibre de peças de artilharia que tinha quando foi tomado (refª. aos artigos V, VIII e IX das pazes de Utrecht).

1732 - A guarnição da fortaleza é reforçada.

1740 - A população era de 200 vizinhos.

1755 - Traçado de uma planta do castelo na visitação que lhe fez Miguel Luís Jacob.

1774 - 20 de Agosto, alvará régio que colectava a Camara de Noudar (vila e julgado na comarca de Elvas) em 780 reis para a Universidade de Coimbra (subsídio literário).

1775 - 3 de Outubro, uma escritura de venda de casas em Moura refere que Pedro Manuel da Fonseca era Governador do Castelo.

1790 - Abolição dos coutos de homiziados.

1803 - Segunda tentativa para resolução do caso da “contenda”, sem grandes resultados.

1805 - 27 de Setembro, alvará que regulou as praças-fronteiras para terem governadores, ficando Noudar extinta e o seu governo extinto.

1811 - Noudar e Barrancos formam uma vila com juiz ordinário em Vila Ruiva.

1821 - Na divisão territorial eleitoral aparecem conjuntamente Noudar e Barrancos formando uma só vila na Comarca de Avis.

1826 - Noudar e Barrancos constituem uma freguesia – Nª. Senhora do Desterro.

1835 - 21 de Março, a reforma e divisão judicial faz depender Noudar e Barrancos do Julgado de Moura.

1835 - 16 de Agosto, em sessão da Câmara de Moura foram propostos os quesitos e respostas a respeito da usurpação da defesa de campo de Gamos pelos moradores de Barrancos e Noudar.

1855 - Setembro, ainda havia habitantes em Noudar. Alastrou ali também a epidemia de cólera mórbus.

1875 - Tinha apenas 12 fogos e casa de misericórdia muito pobre.

1879 - 27 de Março, início do processo para venda do castelo em hasta pública (requerimento de um particular ao rei).

1886 - Nomeados plenipotenciários por Portugal e Espanha para acordarem na divisão da “contenda”.

1893 - 27 de Março, assinada a Convenção sobre a “contenda”.

1893 - 29 de Julho, anunciada a venda do castelo em hasta pública, o que não veio a concretizar-se.

1893 - 11 de Outubro, concretização da venda do castelo em hasta pública pela quantia de arrematação de trezentos mil e cem reis.

1894 - 18 de Julho, ratificação da Convenção sobre a divisão da “contenda”.

1910 - 16 de Junho, decretada a classificação do Castelo de Noudar como Monumento Nacional (publicação no Diário do Governo nº. 136 de 23/6/1910).
Castelo em ruínas
Castelo recuperado
Capela de Nª. Srª. de Entre as Águas ou Nª. Srª. do Desterro
com a torre de Menagem ao fundo

Uma das cisternas do Castelo


Entrada para a Torre de Menagem

Paisagem que rodeia o Castelo de Noudar

À excepçao das fotografias a cores, toda a informação foi recolhida do livro de Adelino de Matos Coelho (CASTELO DE NOUDAR - Fortaleza Medieval)
Edição da Câmara Municipal de Barrancos
Lisboa 1986

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